Sistemas de Gestão e o Advento da IA: O Dilema de Blumenau entre a Abordagem Americana e a Solução Chinesa
Publicado em 10/06/2026

Sistemas de Gestão e o Advento da IA: O Dilema de Blumenau entre a Abordagem Americana e a Solução Chinesa

Recentemente, tenho sido procurado por empresários do setor de tecnologia da informação de Blumenau. O tom das conversas é quase sempre o mesmo: uma mistura de apreensão e urgência. Todos compartilham a certeza de que a Inteligência Artificial precisa ser a prioridade estratégica de suas organizações, mas a grande maioria confessa não saber exatamente qual rumo tomar ou como direcionar seus investimentos para garantir a sobrevivência nesta nova era, especialmente no segmento de desenvolvimento de software.

Essa angústia me é familiar. Iniciei minha trajetória na informática aos 18 anos, em 1976, atuando como programador e analista de sistemas. Mais tarde, fundei meu próprio negócio com sócios, assumi o controle total da operação e, após anos de consolidação, realizei a venda da empresa para um grande grupo canadense. Ao longo dessa jornada — que levou uma startup a faturar uns poucos milhões de dólares —, enfrentei agruras e transições tecnológicas profundas. Do surgimento dos novos sistemas operacionais, as novas linguagens de programação, o rápido desenvolvimento dos microcomputadores, as redes, a chegada da internet, tudo se apresentava como barreiras que pareciam intransponíveis. Para ser honesto, olhando em retrospecto, os desafios daqueles momentos passados me pareciam até piores e mais incertos do que os de agora.

No entanto, há uma diferença crucial. Embora as crises anteriores tenham exigido decisões difíceis e riscos financeiros, não se pode afirmar que o problema atual com a IA seja idêntico aos anteriores. A velocidade atual é sem precedentes. Fazer previsões tornou-se um exercício complexo porque o mundo funciona de forma simultânea: enquanto tentamos desenhar uma estratégia dentro de nossas empresas, a realidade ao redor já se transformou e o futuro está sendo moldado, ao mesmo tempo, por decisões nossas e de terceiros.

Por essa razão, a dúvida dos empresários de Blumenau é legítima e profundamente relevante. Contudo, a resposta para ela reside na própria essência da atividade empresarial. O que é ter uma empresa senão decidir e arriscar constantemente? Os empresários precisam parar de esperar um cenário de estabilidade para agir; eles devem fazer seus próprios futuros, apostando e assumindo o risco inerente ao pioneirismo.

Para iluminar esse caminho, vale a pena observar o cenário global sob a ótica do cientista da computação e investidor Kai-Fu Lee. Suas análises sobre a corrida tecnológica nos oferecem um norte valioso. Grande parte das empresas de tecnologia de Blumenau e do Brasil foca o seu modelo de negócios no desenvolvimento de sistemas de gestão (ERPs) e soluções corporativas para nichos específicos. Para esse complexo inter-relacionamento sistêmico, o caminho da sobrevivência e da prosperidade pode estar em seguir o modelo chinês de inovação, e não o americano.

Kai-Fu Lee argumenta que os Estados Unidos e a China não estão correndo a mesma corrida; eles lideram em frentes completamente distintas. O complexo sistema americano, ancorado por gigantes como OpenAI, Google, Meta e Anthropic, detém a liderança indiscutível nos chamados modelos fundamentais e na pesquisa científica de ponta. Eles dominam o desenvolvimento de hardware, chips avançados, frameworks estruturais e a retenção dos maiores talentos acadêmicos do mundo. Tentar competir na criação desses grandes modelos de base é, para a realidade da maioria das nossas empresas locais, inviável.

Por outro lado, a China lidera o que Lee chama de adoção massiva e aplicações de consumo. Os chineses demonstraram uma capacidade ímpar de transformar a IA em produtos práticos de grande escala com extrema velocidade. O ambiente de negócios na China favorece a experimentação acelerada, o lançamento ágil e a monetização rápida, integrando a tecnologia profundamente em plataformas móveis e no cotidiano dos usuários. Além disso, o país avança a passos largos na robótica e em dispositivos inteligentes dotados de IA embarcada (modelos locais executados no próprio hardware), o que deve desenhar a próxima grande onda de consumo.

Ao analisarmos quem está ganhando essa disputa, percebemos que o futuro será multipolar. Enquanto os EUA lideram em modelos de base, pesquisa de ponta e na adoção empresarial inicial, a China domina em aplicações de consumo, escala de dados, volume de usuários, robótica e dispositivos de automação. Não haverá um único vencedor.

É exatamente nessa bifurcação que reside a oportunidade para o polo tecnológico de Blumenau. Em vez de tentarmos criar a tecnologia de ponta ou competir no desenvolvimento de grandes modelos de linguagem (LLMs) — o modelo americano —, nossa vocação se alinha perfeitamente à abordagem chinesa. O segredo para as nossas empresas não está em inventar a IA do zero, mas em sua aplicação prática e contextualizada.

O foco deve ser a integração inteligente: pegar os modelos existentes e transformá-los em soluções de consumo e de gestão que resolvam dores reais do mercado brasileiro com agilidade e escala. Precisamos ser rápidos na experimentação, eficientes na implementação e corajosos na tomada de decisão. O futuro não pertence a quem criar a IA mais complexa, mas a quem souber usá-la de forma mais útil para transformar a realidade de seus clientes. E para quem já ajudou a construir a história da tecnologia nesta região, o risco nunca foi um impedimento, mas o motor do próprio desenvolvimento.


Referências

Imagem: criada por Gemini conforme proposta do autor.

Wall Street Journal. (s.d.). Kai‑Fu Lee: The U.S. and China are winning different AI races [Vídeo]. Wall Street Journal. https://www.wsj.com/video/kai-fu-lee-the-us-and-china-are-winning-different-ai-races/086D843E-DE40-47F0-8DD7-90DF469E2090.